Podes explicarnos que é o BrOffice.org?
Resumidamente o projeto BrOffice.org é um produto, uma comunidade e também o inicio de uma ONG que representa ao projeto OpenOffice.org no Brasil.
Como xorde esta iniciativa?
Este trabalho iniciou-se no ano de 2001, quando eu junto com outras pessoas iniciamos a tradução do pacote OpenOffice.org ao português do Brasil. Surgiu como um projeto muito interessante, porque falando português temos muitas particularidades que não são sempre visíveis. Deste jeito, com esta tradução fazíamos estas diferenças visíveis tanto para o projeto OpenOffice.org como para o resto do mundo. Infelizmente, igual que aconteceu com a comunidade holandesa, tivemos problemas de marca. No caso da Holanda, a comunidade conseguiu conversar com a empresa dona da marca, e que esta dispôs às suas petições. Mas não foi possível resolver a mesma situação no Brasil. Assim que, por questões jurídicas, tivemos que trocar a marca para BrOffice.org. Posteriormente explicamos ao conselho que gestiona o projeto OpenOffice.org sobre a nossa postura, a qual compreenderam, e hoje BrOffice.org é oficialmente a comunidade brasileira desta ferramenta de escritório.
Canta xente hai detrás de BrOffice.org?
É preciso explicar que este projeto baseia-se em pessoas voluntarias, pessoas que dedicam as suas horas livres a desenvolver estas atividades e que, por este motivo, vão e vêm. Temos tido picos máximos de 250 pessoas trabalhando no projeto, hoje este número está em torno as 100 pessoas ativas. Ainda que é um número flutuante que aumenta ou diminui com as demandas de trabalho.
Persoas procedentes de todas as rexións de Brasil…?
Sim, no caso do Brasil estamos todos espalhados geograficamente a grandes distâncias, mas o nosso meio de trabalho é internet. Eu iniciei o trabalho desde Mato Grosso, no interior de Brasil, conversando com pessoas que estavam a milhares de quilômetros, e inclusive além do mar, como foi o caso de Roberto Brenlla, quem contatou comigo no ano 2004 pela questão da tradução ao galego do OpenOffice.org.
Falas do BrOffice.org como un produto, unha comunidade e unha ONG, quizais estamos ante un proxecto con forte repercusión socio-económica no Brasil?
Brasil tem uma realidade social e econômica distinta da que pode ser a de Espanha ou da Galícia. Como um exemplo, nós estamos chegando à margem dos 200 milhões de habitantes, quando na Galícia a população está em torno dos 2,8 milhões. Somos o 8º país do mundo em tamanho. Que significa o BrOffice.org num contexto como este? Para ter uma ideia, com o preço de uma copia de Microsoft Office nós conseguimos produzir uma tonelada de laranjas. Imagina o valor que isso tem contratando pessoas na área rural e o que significam os seus salários(!): comprar alimentos, manter a família, a educação dos filhos…
En termos de que cifras falamos?
O Brasil registou no ano 2008 em torno a 50 milhões de computadores. Se analisamos que temos uma taxa de pirataria de 40%, podemos dizer que contamos com 20 milhões de computadoras devidamente legalizadas. Considerando que uma copia de Microsoft Office custa em torno a mil reais(nossa moeda), calcule mil reais por 20 milhões de computadoras e poderá fazer-se uma ideia do que são os valores que nós geramos e que poderiam estar sendo usados em saúde, em educação, em infraestrutura… É muito dinheiro, que com certeza pode mudar um país.
Daquela, debe implicarse a Administración pública no eido do software libre?
Eu acredito que nós temos três pilares que têm que ser analisados: um é a comunidade, outro é o desenvolvimento, que seriam as pessoas que realmente trabalham com o código, e mais o governo. A Administração pública precisa entender que ele tem que estar numa situação de legalidade porque ele exige legalidade dos próprios cidadãos. Deve existir um compromisso com a sociedade para melhorar a nossa qualidade de vida e é impossível fazer isso se o governo não atua com responsabilidade nos gastos públicos. O BrOffice.org – ou o OpenOffice.org para o resto do mundo – tem implicações sócio-econômicas diretas porque há uma recondução do dinheiro público que poderia estar sendo aplicado em questões sociais, econômicas, tecnológicas ou culturais. O governo vai investir o que estaria destinado à licenças em promover uma sociedade, em promover uma tecnologia… em definitivo, promover o desenvolvimento. A fórmula é simples. Eu gasto menos e obtenho mais. Consegue-se melhoria em geral para a sociedade.
Migracións masivas a software libre
Falemos logo de migracións masivas. Como se procede nun proceso así?
Não se pode pensar em migrações mágicas. Nós temos um caso, por exemplo, do Banco do Brasil com centenas de milhares de computadores que foram migrados para BrOffice.org. Nesse caso investiu-se num processo migração adequado. Não consiste simplesmente em gerar um produto ou substituir por outro, trata-se de uma nova solução tecnológica. Daquela, de uma pequena parte do que se investiria em licenças pode-se ter um projeto de migração e com isto mudar toda a infraestrutura, conseguir inovação tecnológica, gerar economia entre as empresas da região… porque o governo não contratará a uma multinacional senão que fará uso das empresas locais. Ao mesmo tempo estará dando liberdade ao usuário, porque não se trata tanto da ferramenta em si como do documento final.
A que te refires con isto?
Estamos falando do formato de arquivo. Com software privativo o governo está criando informação para os seus cidadãos com acesso limitado. No caso do Brasil, isto foi um tema muito debatido porque antes eu, ou qualquer cidadão, estava obrigado a adquirir um produto para poder visualizar os formulários que o governo me fornecia. Então ou comprava uma copia do produto a um preço elevado, ou simplesmente ia pela via da pirataria. O governo acabava situando-me numa situação onde praticamente não tinha escolha: ou gastava o dinheiro em adquirir o programa ou me colocava numa situação de ilegalidade. Foi nessa situação na que se começou a analisar o formato de arquivo. O BrOffice.org usa o ODF, o qual dá toda a liberdade ao cidadão. Se há alguma informação que o cidadão não consegue visualizar, só tem que ir na internet e baixar a ferramenta gratuitamente. É um avanço fundamental na relação entre o governo e a sociedade. Além disto, se no dia de amanhã decidir voltar a trocar de produto, já não seria preciso a migração da base documental, porque já estaria em formato aberto e com total liberdade de provedores.
Uma comparação interessante seria com os egípcios e hieroglifos. Os dados eram conhecidos mas quando se perdeu o conhecimento de como acessar esta informação os dados deixaram de ser úteis para nós. Através da Pedra Roseta se conseguiu traduzir isto ao nosso idioma, e desde então já não existe o sistema legado.
Non existe o risco de que nun proceso de migración se produza este tipo de perda de información?
Tem que ter cuidado com a questão cultural dos usuários, não é fácil para um usuário trocar um produto por outro. Por isso tem que analisar as questões das interfaces, a da troca dos documentos interna e externamente. É um erro pensar que os nossos empregados/colaboradores vão saber sempre como utilizar o produto. Por isso os processos de capacitação são fundamentais para dar segurança
à pessoa com a nova ferramenta, mas também para obter um maior nível de produtividade. A via de regra, no Brasil, estes processos vieram acompanhados de consultorias, já que existem diferentes graus de usuário: os que só precisam documentos simples, mas também os que utilizam as opções avançadas…
Cres que en Galiza se dan as condicións necesarias para proceder a unha migración masiva?
Bem, eu levo pouco tempo aqui. Mais no momento em que existe uma administração preocupada em melhorar a sua relação com a sociedade e em melhorar as questões de como aplicar os fundos na questão tecnológica, então se dão as condições necessárias para iniciar um processo deste tipo. Uma das coisas interessantes que nós vemos no Brasil é que não só migraram as empresas, senão que também migraram as pessoas. Porque a regra é simples: se isso é bom para mim por que não vou usar em casa?.
En Galiza apréciase de modo moi particular a contribución da lusofonía, da que Brasil forma parte, en que medida pensas que isto pode ser un apoio para a migración?
A questão da lusofonia sem dúvida é uma ponte fundamental para encontrar um caminho de como a Galiza pode entrar no universo do software livre. As tecnologias abertas são uma ferramenta que pode ajudar em qualquer pais, e a questão da lusofonia pode ajudar muito não só a respeito de Brasil e Portugal, senão também de todos os países de fala portuguesa. Galícia tem um apoio interessante neste sentido tanto frente ao português como ao espanhol e isso abre tecnicamente todo o mercado latino, europeu, e incluso de alguns países na África e Asia. Em resumo, Galícia tem muitos caminhos abertos, mas agora precisamos saber como envolver as pessoas dentro dos projetos de software livre.
